NOVA MÚSICA PORTUGUESA

Numa altura tão perturbadora para quem vive em Portugal deparo-me com um país vazio: vazio de conceitos e cheio de preconceitos!

A indústria da música portuguesa afunda-se um pouco todos os dias... não se vendem discos, poucos concertos se fazem e para melhorar temos os ícones estrangeiros a ocupar lugar nos cartazes dos festivais de Verão!
"Azar!", "a música portuguesa não presta", "Inglês é mais fixe!"...
Pode ser... mas lembrem-se os "putos" (que vivem neste país) que têm de falar e escrever português em Portugal!
Quando precisarem de emprego e lhes fecharem as portas (como fizeram à música portuguesa) lembrem-se de pedir trabalho aos estrangeiros ou aos "falsos artistas" de fora que fizeram enriquecer estupidamente!

Como disse o músico Paco Bandeira um dia na Antena 1: "...temos de ser portugueses erguidos e não de rastos!"

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

MIKE OLDFIELD (uma guitarra tubular)


Michael Gordon Oldfield, vulgarmente conhecido como Mike Oldfield nasceu em Inglaterra no ano de 1953.

Proveniente de uma família ligada à música, Mike absorve música erudita e a guitarra de Hank Marvin dos Shadows. Não será por isso estranho o facto de ter integrado uma banda de tributo a Shadows & Hank Marvin nos anos 60.


OS SINOS TUBULARES (Tubular bells)

Oldfield tocava guitarra sempre que podia, desenvolveu uma técnica própria e começou a fazer música instrumental. Alguns desses temas seriam a base para o seu primeiro disco...

Um dia ele vai ter com Tom Newman (produtor), depois de ter perdido toda a esperança (todas as empresas discográficas recusaram o seu trabalho) e pede para ouvir as suas fitas. O produtor, pensado que se tratava de um bêbado ou que estava na presença de um louco, diz-lhe que ouviria mais tarde e mandou-o embora!

Alguns dias depois Mike volta ao estúdio e pergunta-lhe se já tinha ouvido o seu trabalho, mas Newman nunca mais se lembrara! Tom pegou num leitor de bobines e ficou enfeitiçado com a música: algum tempo depois começavam as gravações!

Mike Oldfield ficou em pânico, pois só tinha uma semana e um dos temas iria durar 25 minutos. Muitos dos instrumentos eram emprestados e foram utilizados à pressa. Durante as sessões tocou mais de 20 instrumentos e foram feitas mais de 2000 dobragens em fita. Tirando a flauta e as vozes femininas, tudo foi feito por ele! Tom Newman e Simon Heyworth foram apenas co-produtores...

O album que ninguém queria chegou ao 1º lugar de forma fugaz, permanceu 279 semanas na lista dos mais vendidos (2,630,000 cópias no Reino Unido).


AS VÁRIAS FASES

Como o Tubular Bells (1973), Hergest Ridge (1974) é uma peça instrumental exelente com dois movimentos. Em 1975 entra no campo da “música do mundo” com Ommadawn e em 1978 lança o Incantations com belos corais, numa espécie de viagem ao centro da terra. Acaba o primeiro ciclo deste génio!

A década de oitenta foi uma época comercial para Mike. Músicas curtas, “orelhudas” e sem essência... o segundo ciclo do músico!


AMAROK

Não se sabe se foi pelas críticas, mas Mike Oldfield surpreendeu o mundo com um trabalho de uma hora ineterrupta de música. Elevou-se num extremo senso de composição e melodia, onde toca mais de 60 instrumentos num mosaico de música portuguesa, flamenco, celta, africana, minimal, folk, progressiva entre outras. Em Amarok (1990) esquecemos o período das trevas e deliciamo-nos com um exelente trabalho acústico e eléctrico de Mike Oldfield. A composição, execução, captação e produção são de nível superior... uma obra anti-comercial, um “bater de portas” de despedida à editora Virgin, com direito a insulto camuflado no código Morse a meio do tema.


GUITARRAS

Como se pode imaginar, fazer uma lista de instrumentos usados por Mike Oldfield até aos nossos dias, desencorajaria até Noé. Será sensato apontar apenas as guitarras mais emblemáticas! Influênciado por Hank Marvin, Mike usou uma Fender Stratocaster vermelha durante largos anos. A única guitarra eléctrica usada no Tubular Bells foi uma Fender Telecaster emprestada dos T-REX. Durante os anos 70 e 80 também usou várias Gibson Les Paul e SG. Desde 1989 até hoje usa uma PRS Artist Custom 24 cor de âmbar.


EFEITOS

O segredo de Mike Oldfield reside no fraseado e som dos instrumentos de sopro, pois sempre tentou emular o som da flauta na guitarra eléctrica.

Para as guitarras soarem a flauta, Mike usou uma caixa misteriosa chamada Glorfindel (uma caixa de madeira cheia de transistores de má qualidade, cravejada de botões). Segundo Tom Newman, a caixa era muito instável, pois ora dava um som aceitável ou (na maior parte das vezes) soa muito mal.

Ao que parece a caixa (no Tubular Bells) produziu um som altamente comprimido e suavemente distorcido. Além disso as guitarras foram dobradas a metade da velocidade e em normal (parte dois aos 08:41).

Esta “ferramenta” é uma variante da técnica de guitarra rápida (speed guitar). O efeito foi criado gravando com a fita correndo a metade da velocidade. Quando a fita era tocada na velocidade normal a guitarra estava a soar ao dobro da velocidade com uma tonalidade muito própria.

Em 1978 Mike usava um sistema bizarro para criar o seu som: ligava a guitarra a um reforço de agudos, ligado a um mini combo (a pilhas) da VOX já com um pouco de saturação. Esse pequeno combo era captado pelo microfone de um gravador de bobines TEAC (saturado para conseguir mais distorção) e depois passava por um equalizador gráfico com os médios reforçados. O sinal era enviado para outro canal da TEAC para, segundo Mike, ajudar a manter a guitarra no nível certo. A saída do aparelho era ligada à mesa de mistura, passava por um reductor de ruídos e um outro equalizador. Ele também tinha um combo Fender Twin Reverb no estúdio que usava por vezes para tornar o som mais quente (tornando o som mais real e menos electrónico).

O guitarrista começou a usar sintetizadores para guitarra desde meados dos anos 80, nomeadamente o Roland GR-300/G-808. Nos anos 90 usou uma PRS Custom 24 vermelha equipada com um Roland GK2 num Roland VG8 e recentemente um Line 6 Variax.

Além dos sons MIDI, ele também usa o Wha-wha fixo numa posição intermédia para obter determindas tonalidades.


Além da tecnologia digital e analógica, Oldfield usa uma técnica fora do comum: toca com dedo e unha (típico da guitarra clássica) e usa de várias formas de obter vibrato, nomeadamente o seu característico vibrato clássico a alta velocidade.

O próprio músico admite que muita da sua forma de tocar vem da musica tradicional e da técnica do baixo.

Até aqui podemos vislumbrar uma forma de tocar guitarra diferente, pois não há frases de blues, nem pentatónicas. Há um certo ar erudito... a técnica da guitarra clássica numa guitarra eléctrica!


DICA DO MÊS

Todos as obras de Mike Oldfield até 1978 são de referência mundial, sendo o Tubular Bells o mais famoso! Para aqueles a quem o som típico da década de 70 lhes desagrada, pode ouvir o Tubular Bells 2003 (Mike pegou nas fitas originais e tocou de novo alguns instrumentos criando um “novo” produto com uma sonoridade mais moderna).

AMAROK é obrigatório ter na prateleira, mesmo que a obra não seja totalmente do nosso agrado. É uma das melhores criações musicais do século XX.

domingo, 1 de novembro de 2009

HANK MARVIN & O CASO PORTUGUÊS

No ano de 1993, também no dia um de Novembro, iniciei o meu caminho na Guitarra. Como uma espécie de aniversariante, atiro momentaneamente fora as regras da imparcialidade escolhendo HANK MARVIN (o meu primeiro ídolo da guitarra) e agradecendo a pessoas que normalmente não têm relevo neste tipo de temas: Júlio Tomé (com o seu ego ainda verde dum 93 já distante, mas totalmente responsável pelo facto de toda a minha vida girar hoje em torno da música). Logo de seguida o sr. Avelino Francisco (não propriamente um professor, mas um criador de desafios que por vezes me levavam às lágrimas. Talvez daí resida a razão da minha resistência face à maior crise musical da minha geração). Finalmente queria mandar um grande abraço ao Pedro Duarte (o homem que me mostrou a “luz” durante anos, desde guitarras, música, processadores e etc. Olhar para o Pedro a tocar era a melhor aula que se podia ter).

A DESCOBERTA DOS SHADOWS
Penso que teria sete ou oito anos... era Verão e devido à proximidade do término das aulas, ainda acordava cedo. Vasculhava toda música existente em casa: desde o vinil à K7... até encontrar uma com nome de Shadows (XXV). Não sei porquê, mas de toda a música que ouvira antes, aquele som despertou algo tão profundo que ainda hoje me deixa emocionado!
O meu pai dizia que tinha comprado a K7 de Shadows porque o guitarrista tinha um som puro e magnífico. Explicou-me que ele próprio (o meu pai) por vezes tirava uns sons do género nos “Ases do ritmo” (Sultains of Swing) com ajuda duma câmara de eco feita artesanalmente pelo Mapril (um curioso “faz-tudo” amigo da banda).

Hank Brian Marvin (guitarra solo dos “The Shadows”) nasceu na Inglaterra em 1941. Aos desasseis anos estava a entrar na banda de suporte de Cliff Richard.
Marvin, rapidamente revoluciona todo o conceito tradicional de tocar guitarra e a então banda de suporte de Cliff Richard (The Shadows) passa a ser a estrela .
Não há nada de extraordinário nos concertos deles, além do bom humor e alguns passos sincronizados de dança!.. Vestem-se de fato e gravata e raramente cantam!...
Há duas fases distintas da carreira da banda: originais e covers. Os originais são um misto de country, surf e rock dos anos 50/60. A era dos covers é odiada por alguns, mas sendo a mais recente, o som é melhor!

A GUITARRA
Nos anos cinquenta Cliff fala-lhe de uma guitarra nova que surgiu nos Estados Unidos da América. A Fender não se vendia na Europa e não se podia importar naquele tempo, tendo a de Hank sido trazida pessoalmente.
Ele escolheu a Fender Stratocaster mais cara: cor vermelho Fiesta, escala em “olhos de pássaro”, ferragens douradas, modelo nr. 34346. Ainda hoje se diz que essa guitarra foi a primeira a entrar em solo britânico!
Uma curiosidade interessante é que os ingleses achavam que os americanos tinham uma força fora do comum. O calibre das cordas rondava os 0.13 e para miúdos como Harvin era inigmático como os americanos empurravam as cordas para cima e faziam vibrato... Hank não imaginava que nos E.U.A. usavam 0.10 ou 0.08! Ainda hoje ele usa 0.11 para as músicas mais antigas!
O facto da Stratocaster ter uma alavanca de tremolo (novidade em todo o mundo da guitarra) ajudava o empurrar da corda e a criar uma série de efeitos novos para a época.Esses factores fizeram do som de Hank uma referência de relevo mundial! Os “The Shadows” foram a banda mais importante de U.K. até surgir o fenómeno Beatles.

AMPLIFICAÇÃO
Hank Marvin usou VOX como a base da sua amplificação. Até 1958 usou o VOX AC15, mas depois da banda crescer e deixar de tocar em pequenos clubes viu-se obrigado a encontrar uma solução. Naquela altura Hank Marvin foi responsável pela invenção do VOX AC30 (ainda sem o reforço de agudos). Pouco tempo depois, Hank sugere que eles ponham mais agudos nos amplificadores e surge o primeiro modelo com TOP BOOST (reforço de agudos).

EFEITOS
Relativamente a este ponto não há muito que explicar. Estava-se numa altura “pré-efeitos”, onde o som eléctrico dava os primeiros passos.
A única e derradeira arma do guitarrista é o eco: ele começou por copiar os sons do rock da época e depois começou a tocar melodias que se harmonizassem nas repetições de eco.
Umas das suas técnicas (criadas em sessões experimentais) é abafar as cordas junto à ponte com um multi eco muito rápido e sincronizado com o andamento da música.
Imagino que até hoje só os U2 usam o eco com a seriedade de Hank Marvin: mesmo grandes professores das melhores escolas de guitarra eléctrica de Inglaterra ou E.U.A. não percebem nada de eco! Toda a gente acha que imitar Shadows é pegar num delay em modo “slapback” e já está! Completamente falso e errado: Hank Marvin usava eco de fita com várias cabeças de reprodução, o que permitia ter mais de que um tempo de repetição. Cada tema tinha um tempo diferente e o segundo eco era sempre calculado em função do primeiro. A unidade Meazzi Echomatic marcou o som inicial da banda. Hank usou depois a lendária BINSON ECHOREC 1 & 2 (no tema “The Rise And Fall Of Flingel Bunt” nota-se a cabeça cinco desta unidade a “responder” ).
Houve até uma unidade Vox “modelo Shadows” mas nunca foi usada por eles...
Anos depois, em 1980 Marvin usou uma Roland SRE-555 de rack (a fita também). Actualmente usa um processador Alesis QuadraVerb 2/Q20 digital! O “pai” da VOX (Dick Denney) diz que esta unidade soa melhor que as de fita dos anos sessenta (ainda a válvulas): cada simulador de “cabeça” tem uma equalização diferente para criar uma sonoridade mais autêntica e cada progama tem a saturação e eco típica da altura em o tema foi gravado. O guitarrista tem um técnico que lhe muda os progamas em função do alinhamento do concerto.
Tirando o eco, ele usa um pedal de volume para dar um carácter mais vocal em determindas notas dos temas mais modernos, sendo o caso de “the deer hunter”.

O CASO PORTUGUÊS
Os Shadows marcaram várias gerações de portugueses. Houve até um “Concurso de Conjuntos tipo «The Shadows»”em 1963. O júri era constituído por Maria João Aguiar, António Miguel, Luís Villas-Boas, João Nobre, Paulo de Medeiros, Hugo Ribeiro, Posal Domingues, Mello Pereira, A. Leite Rosa e José Gomes. Inscreveram-se vinte e dois conjuntos portugueses: Gatos Negros, Nelo do Twist e seus Diabos, Electrónicos, Jets, Telstars, Ekos, Les Fanatics, Vendavais, Tigres, 3 Jotas, Titãs, Gentlemen, S.O.S., Lisboa À Noite, Nova Onda, Sanremo 172, Napolitano, Panteras do Diabo, Jovens do Ritmo, Mascarilhas, Juventude Dinâmica e Condores.
Na final (dia quatro de Outubro) no comunicado do júri constava: "considerando que a apreciação dos Conjuntos por princípio teria de ser fundamentalmente do tipo do "The Shadows", não julgou a actuação dos vocalistas (embora alguns bastante se tivessem distinguido)".
O júri deliberou por unanimidade declarar vencedor do concurso o "Conjunto Mistério" (grupo que não estava referido no anúncio inicial de qualificação do Concurso). O grupo mais votado pelo público foi os Gatos Negros.

Três dias depois, o jornal Diário Popular, publica uma crónica sobre o concurso. Eis alguns exertos: "Perante uma enorme multidão, na sua essência constituída por jovens apaniguados do azougado ritmo dos nossos dias - o twist - terminou na passada sexta-feira no Cinema Roma o certame que a Gerência daquela sala empreendeu no sentido de escolher um agrupamento que maiores afinidades apresentasse com os celebrados Shadows.”
“Depois da exibição de todos os grupos inscritos, o júri seleccionou cinco conjuntos que dirimiam forças na final e que na realidade se afiguraram os mais apetrechados para discutir a primeira posição. Foram eles Os Diabos, de Nelo, Titãs, Conjunto Mistério, de Fernando Concha, Panteras do Diabo e Os Gentlemen, de Daniel Bacelar.”
“Após as respectivas audições, saiu vencedor, como se previa - e por mérito próprio - o agrupamento Mistério, dirigido pelo conceituado Fernando Concha. Com efeito, o popular conjunto caprichou em ofertar-nos um variado e homegéneo sortilégio melódico para todos os paladares.”
"Sem dúvida que para o êxito obtido em muito contribuiu a escolha das engendradas composições onde o quarteto desenvolveu a sua classe proverbial, pois empregou uma orquestração assaz rica e utilizou-a em todas as tonalidades, sem perder qualquer das suas outras facetas quer no aspecto inventivo, frescura melódica e sentido rítmico.”
"Apresentação sóbria, como é apanágio, de Fernando Pessa.”
"Estão pois de parabéns o público, o conjunto galardoado, Portal da Costa, idealizador do certame que com tanto brilho decorreu e o júri pela uniformidade e certeza de critério com que deliberou".

No dia 12 , a revista Rádio & Televisão escreveu: "No palco do Cinema Roma estiveram vários conjuntos jovens num concurso destinado a eleger o que mais se identificasse com os famosos Shadows. Ganharam justamente Fernando Concha e o seu Conjunto Mistério. E revelaram-se outros grupos que poderão ficar como valiosos intérpretes de música moderna.”
"Além deste factor, a iniciativa teve outra particularidade agradável: não houve êxtase de jovens contagiados na plateia, não houve distúrbios na sala.”
"Provou-se que os ritmos modernos podem ter o seu lugar em Lisboa sem os alarmanetes exageros de juventude que têm preocupado outras capitais e que ainda recentemente foram nota pouco tranquilizadora numa sala lisboeta".

O grupo eleito pelo voto do espectador teve direito, pela Valentim de Carvalho, a uma face de um disco comercial. A banda escolhida pelo Júri teve direito a um disco de duas faces e ainda o previlégio de serem apresentados pessoalmente aos Shadows (em Londres).
Acompanhados por Fernando Pessa, o Conjunto Mistério esteve uma semana na capital londrina, tendo actuado na BBC e na Casa de Portugal.
O leitor mais atento, poderá questionar-se sobre o facto de ganhar uma banda não inscrita. Embora não saiba o motivo, o Conjunto Mistério era o grupo inscrito como Mascarilhas!

O conjunto Mistério, com uma carreira compreendida entre 1963-1965, gravou 4 EP’s e ainda foi banda de suporte dos DUO OURO NEGRO e dos EKOS. Dois músicos deste grupo viriam a fazer parte do Quarteto 1111 de José Cid.
Um dos elementos disse: “Os Beatles é que deram cabo do Conjunto Mistério. Nós fazíamos instrumentais de canções populares portuguesas e depois apareceram os Beatles com as suas vozes fantásticas e nós fomos por água abaixo. Não tínhamos vozes”.

ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES
Tecnicamente, Hank Marvin não será um virtuoso, mas não se ceguem pela época ou o facto de ele usar som limpo! Ser um Marvin pode ser tão difícil como outro roqueiro qualquer. Hank é muito expressivo: podemos ouvir o ataque em cada nota de tal modo que até cria uma falsa ilusão de simplicidade! Tocar solos nota por nota pode até ser complicado, mas Hank fa-los com duas,três ou mais vozes em simultâneo!

Pela componente histórica, ouçam a música “Apache” pois foi o tema de lançamento dos “The Shadows” é um dos que mais influenciou a geração seguinte de guitarristas: Santana, Jeff Beck, Brian May, David Gilmour, Mike Oldfield, Mark Knopfler, entre muitos outros.
Em temas como “Wonderful Land”, “Atlantis” e “Peace pipe” pode-se ouvir a técnica de eco e abafe típica de Marvin.
“The Shadows” têm mais de 50 singles editados em Inglaterra, uns 24 álbuns, tirando as colectâneas. Há também livros, Cd’s e DVD’s, dos quais aconselho fortemente o DVD “The final tour” de 2004!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

YNGWIE J. MALMSTEEN - O Guitarrista do Diabo -

Num dia Mundial da Música, cujo último dia do mês culmina com a noite das bruxas, nada melhor do que um dos músicos mais controversos dos nossos tempos!...

Se há algum músico odiado neste mundo será Lars Johan Yngve Lannerbäck, vulgarmente conhecido como Yngwie Malmsteen.
Bastante influenciado por Hendrix, este guitarrista mistura a atitude do rock com o barroco. Inovou pela sua postura em palco e pela música, que foi uma novidade momentaneamente impossível de deslindar.
Quando ouvi este músico pela primeira vez fiquei abismado com a clareza e sentimento a tão alta velocidade. Os seus concertos irradiavam vida de forma quase violenta, a guitarra parecia tocar sozinha, ele tocava com os dentes e atrás das costas enquanto corria de um lado ao outro do palco. As suas exibições com eco eram fantásticas e os sons que tirava antes de destruir a guitarra eram enigmáticos. Muitos se questionaram sobre a génese daquela técnica sobre-humana e os efeitos que ele produzia ao vivo. O Malmsteen durante a maior parte da sua carreira dizia que ligava apenas a sua guitarra ao amplificador em conjunto com uns ecos e pouco mais. Seria verdade?

A MÚSICA
Antes do material, teremos de abordar brevemente a vertente teórica da sua forma de tocar. Yngwie não era o típico guitarrista da escala pentatónica, ele tirou de ouvido Bach, Vivaldi e emulou a técnica de violino de Pagannini. Malmsteen criara técnicas inéditas na guitarra, tais como o “varrimento das cordas” (sweep picking), notas de pedal (pedal point), etc. A sua escala base é a tradicional pentatónica fundida com a menor harmónica e o modo frígio a mil à hora. Tudo isto conjugado com o domínio de harpejos de seis, cinco, quatro, três e duas cordas!
Os seus inícios de solo são obras ao estilo barroco com sequências harmónicas muito bem construídas e com um grau de complexidade ainda hoje acima da média.
Yngwie J. Malmteen ainda hoje não sabe ler música e nunca teve uma única aula de guitarra…

AMPLIFICADORES
YJM, é um purista! Usa cabeças a válvulas antigas feitas à mão, sem recurso a máquinas: Marshall MK2 e PLEXI 1959. Ele sabe que só estes ampificadores dão a saturação que quer: o músico garante que estas cabeças têm um som mais quente e não crispam o som. Nos seus concertos chega a usar mais de vinte e quatro amplificadores e para cima de vinte sete cabines 4x12 com altifalantes Celestion G12 de 30W.
Várias empresas contactaram o músico para lhe construir um modelo de assinatura ao que lhe respondia que preferia pagar um Marshall do que ter qualquer outro de borla!

GUITARRAS
O Malmsteen usa Fender Stratocaster para dextros invertida ao estilo de Hendrix. A escala é escavada em cada trasto para facilitar os “bendings”, tornado-a mais difícil de tocar. Os três captadores são Dimarzio HS-3 de ganho muito baixo e com os agudos um pouco abafados. Tanto os HS-1, HS-2 como os HS-3 existem graças a ele. Steve Lukather e Larry Dimarzio achavam que não seria fácil colocar uma bobine no topo uma da outra (sugestão de YJM) mas a prova está à vista: cortou-se uma boa parte do ruído e conseguiu-se ajudar a equilibrar o exesso de agudos do seu som saturado.
Yngwie tem usa também Gibsons no estúdio (secção rítmica) e Ovation acústica (normalmnte comprimida por um pedal MXR Dyna Comp).
Uma curiosidade prende-se ao facto de Yngwie Malmsteen ter sido o primeiro guitarrista a ter guitarra de assinatura na Fender!
Em Portugal, um fã levou-lhe uma IBANEZ para ele assinar e no lugar do autógrafo escreveu: “Buy a FENDER!”

CORDAS
YJM têm três conjuntos de cordas com o seu nome: Yngwie's Magic, Yngwie's Ball End e Yngwie Approved set. O calibre do jogo de cordas é: .008 -.011 -.014 -.022 -.032 -.046. Também Malmsteen mistura vários calibres, o que torna claro uma certa influência de Hendrix.

EFEITOS
Para muitos, Malmsteen não têm grande ciência no seu som, mas será?
Durante largos anos não se sabia de onde vinha o som saturado da sua guitarra. Havia fotos tiradas ao palco por membros da audiência e até por roadies… e realmente ele não usava pedais de distorção.
Nas fotos via-se um Cry baby, um Flanger da VOX, um controlador Bob Bradshaw para as unidades de rack , um supressor de ruído e um Moog Taurus (esta estranha unidade baseia-se nas pedaleiras dos órgãos de tubos, tocando-se da mesma maneira. Não é um efeito de guitarra mas um sintetizador cujas notas se tocam com os pés. Permitia assim tocar as notas graves que melhor se adaptassem à sua exibição a solo na guitarra). Este era um dos seus segredos!
Noutras fotos via-se também um banal OC da BOSS que permitia dobrar a nota tocada, uma oitava ou duas a baixo. Era desta forma que Yngwie nos fazia pensar que o que estava a tocar era tocado também pelo teclista. Nem sempre era!
Uma da malabarices que ele fazia era usar o eco com longas durações. Desta forma ele conseguia simular uma fuga ao estilo de Bach completamente sozinho. Além de conseguir compor fugas em tempo real, ainda o fazia usando uma técnica complicadíssima de cortar o ataque das notas rodando o potenciómetro de volume (sweel).
Antes de destruir a guitarra, Yngwie criava uns efeitos estranhíssimos. A guitarra atingia agudos intoleráveis para de seguida parecer que explodia. Esses agudos parecem ser feitos com um Octavia do Jimi Hendrix e o wha completamente aberto. O restante era um truque com uma velha câmara de eco a fita (Roland DC 10): com o volume /repetições no máximo e o rodar do potenciómetro do “feedback” criava sons demolidores ampliados pelo facto de nesse momento a guitarra ser partida em mil bocados!
E agora vamos ao último e o mais importante segredo...

Tal como foi supracitado, durante uma década ou duas parecia não existir pedais de distorção na sua rota de sinal, mas era mito! É inegável a mudança entre os seus primeiros trabalhos e o album Marching Out (1985), assim como se nota ainda novas mudanças entre o Eclipse (1990) e o Magnum Opus (1995). E não fica por aqui!...
Quando Yngwie abandona a Suécia e chega aos Estados Unidos entra nos Steeler (1983) e na banda Alcatrazz. Percebe-se que ele ainda andava à procura do seu som: pouco ganho, as suas frases de guitarra ainda não tinham surgido e mesmo a estrutura harmónica era estranha. Talvez nem tivesse pedais... podia ser um som tipo AC DC. No entanto ele já tinha um DOD 250 (versão cinzenta) sempre ligado e escondido!
O 250 é um pedal que satura o som à entrada do pré-amplificador (e se forem ver reparam que no original está escrito “preamp”). Tem um som bastante aberto, notando-se a técnica do guitarrista como se o som passasse por uma janela aberta. Surpreendentemente é o saturador com menos ganho que alguma vez toquei, é quase impossível imaginar sequer tocar rápido com o DOD. No entanto, garanto que é o que ele usa! É o timbre dele... mas não é um YJM numa caixa!
Basta ouvir o album “Rising Force” (1984) para terem uma boa noção do DOD 250 e também para servir de eixo de comparação com trabalhos posteriores, nomeadamente o “Eclipse” (1990). O som ficou mais cheio e parece ter mais ganho... e segundo me parece vai aumentando até atingir o topo do seu melhor: “Magnum Opus” (1995). Entre 90 e 95 tenho a sensação que houve mais qualquer coisa além do DOD. Basta que tenha puxado mais pelas cabeças Marshall de 50W para ter obtido mais corpo, ganho e compressão...
Infelizmente, como é habitual, grandes artistas têm um momento de queda do qual raramente recuperam... desde 1997 Malmsteen cai em queda livre! O seu som e música deteora numa perfeita harmonia com problemas de ordem afectica, judicial e de saúde... e com o lançamento do seu pedal de assinatura: DOD YJM308 (número do seu estúdio).
Este objecto (uma suposta cópia do DOD original sem ruído) começa a aruinar o som do guitarrista a par com a nova mania do sueco em querer que tudo da sua técnica se ouça! Resultado: um som muito agudo que torna a apreciação da música muito penosa.
Relativamente ao seu último album (2008), sabe-se que está a largar o DOD308 e regressar ao DOD250... um susto de ordem cardíaca levou o músico fazer uma forte dieta, a deixar de fumar (entre outros vícios) e mudar um pouco o seu ego, reconciliando-se com antigos companheiros da música!...

Houve quem lhe perguntasse porque não muda de estilo ou se moderniza... YJM responde que não consegue ignorar tudo o que sabe de música e a técnica que tem e desenvolveu, para agora esquecer tudo e começar a fazer temas tipo Cold Play...

SUGESTÕES:
O album favorito do próprio Malmsteen é o “Trilogy” (1986) que já merecia uma remasterização. Podemos ouvir aqui melhor fase deste músico! **** (4/5)

Em 1995 inaugura o seu estúdio com “Magnum Opus”. Tanto eu como o seu gerente de carreira partilhamos a opnião de que é o album mais bem produzido que tem. A guitarra está no seu melhor, é o conjunto de músicas mais “progressivas” que fez até hoje... (o disco começa com uma Strat modificada para cordas de nylon com captador piezo!) **** (4/5)

O sonho de Yngwie: “Concerto Suite for Electric Guitar and Orchestra in E flat minor, Opus 1”. A mais subtil nota de cada instrumento foi composta pelo músico, inclusivamente do côro!... Como ele não sabia escrever em pautas ditava cada melodia ao seu teclista para passar no papel. Uma obra de arte! ***** (5/5)